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A Cidade Global

A Cidade Global

Não há comunista em Portugal que não se sinta obrigado pela consciência atávica a celebrar a façanha e a tragédia recente de um seu ancestral retornado das colónias. Foi essa cilada do destino que obrigou os comunistas a procurar com diligência um novo paradigma para o discurso anti-colonial, uma nova formulação que mergulhasse profundamente na memória atávica. É a Cidade Global. Uma grande távola redonda de comensais, que reúne os comunistas com a fidalguia sob a égide patriarcal de Sua Alteza Fidelíssima. O Quinto Império, meus senhores.
06
Mar17

A arte de vender e comprar currículos

MCN

Eu fui aprendendo com o tempo, esse pícaro vadio e fugitivo, sempre esconso nas sombras da floresta para surpreender os viajantes incautos.
Com o tempo fui-me adestrando em matririces, na espera, na paciência. O que pode ser feito amanhã com mais prudência, não deve ser feito hoje, sem auscultar os auspícios.
Vem isto a propósito da cidade global e da mercadoria, essa mágica exultante de encanto e sortilégio, o rei Midas na ponta dos dedos.
Habituei-me cedo a transgredir pelo tempo afora. A não deixar que algo acontecesse hoje sem procurar como aconteceu ontem, no Século passado, outrora, que é um passeio que continua benefício e honra do tempo, um itinerário que tornou já imperativa muita cartografia, bússulas, sextantes e velas para navegar.

Dizem-me Cidade Global e eu parto em viagem. Em demanda. É o meu ''graal'' o tempo furtivo e esquivo.
Veio-me hoje à memória Vitorino Magalhães Godinho, esse ''execrável'' Vitorino Magalhães Godinho de dedo em riste apontando a direcção do tempo.
Releio ''Mito e mercadoria, Utopia e prática de navegar, Séculos XIII-XVIII'', de 1990, no fogo das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.
Leio e concluo, a História talvez seja uma mercadoria, talvez seja uma Cidade Global, ''um centro comercial no Século XVI''.

A História transformou-se no currículo dos historiadores, uma mercadoria que se compra e se vende e que sobretudo vende.
Não vale a pena disputares com um historiador encartado porque ele atira-te uma pedrada com o seu currículo. Toda a razão estenua no litígio com um currículo.
Na era em que a Utopia é ela própria uma mercadoria, a Razão, que é conservadora relativamente à Utopia, não se vende. Ninguém a compra.

Ora, para intervir a propósito da cómica polémica acerca da autenticidade das pinturas que congregaram a propaganda da exposição a ''Cidade Global'', remeti paras as ''mailinglist'' MUSEUM e HISTPORT um texto, sumário, tentando chamar a atenção para que o que estava em causa, acima e antes de tudo, não eram as pinturas e a sua ''autenticidade'', mas é a ''Cidade Global'', como formulação mercantil, como Utopia que se vende e se pode comprar. Como alucinação, como catarse colectiva. Como desfoque, num mundo em que o espectáculo da comédia oblitera a tragédia.

As ''mailinglist'' MUSEUM e HISTPORT são o escaparate onde podemos comprar e vender currículos. Mas se não tens currículos para venderes ou trocares não vale a pena lá ires. Ficas embasbacado a salivar com a mercadoria.
Em ciência, o que cada vez mais conta são os currículos, as comendas e o peito. Não os músculos do peito, mas o que se vê no invólucro, no dolmen. Para não falar do que se insinua por debaixo das calças. Enxumaços.

Há umas décadas contava-se entre os antiquários da Cidade Global uma anedota.
Era assim.

Um antiquário da base, daqueles que corriam aldeias e vilarejos a levantar ''a caça'', passou em frente de um casebre numa aldeia remota e viu um gato a beber água de um ''prato de aranhões''.
Saíu do carro, agarrou no gato ao colo, dispensou-lhe uns mimos e uns afagos e disse para o dono, que entretanto viera a soleira da porta.

- Lindo gato. Tive um assim e morreu. O senhor não me vende o seu gatinho?

- Vendo sim, ele está aqui para venda.

- Por aqui não deve haver muita gente para comprar gatos...

- Por acaso há.

- Ah... E quanto custa?

- Cem mil reis.

- Gostei tanto dele que lhe vou dar oitenta mil reis.

- Sim senhor.

- Já agora, ele deve estar habituado a beber nesse pratinho. Posso levar também o pratinho?

- Isso não. Deixe ficar o pratinho que já vendeu cinco gatos.

A anedota só teve sucesso entre os antiquários. Só lhes interessava a eles. Com ela, os antiquários alertavam os neófitos para a manha dos aldeãos.
Será então o caso de perguntar.
Quantos custa a tela cortada ao meio de Kelmscott Manor? Se for o caso de já ter vendido livros que bastem ou sobejem.
Para quando a abertura da subscrição pública para aquisição da tela e meia de Kelmscott Manor?

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