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A Cidade Global

A Cidade Global

Não há comunista em Portugal que não se sinta obrigado pela consciência atávica a celebrar a façanha e a tragédia recente de um seu ancestral retornado das colónias. Foi essa cilada do destino que obrigou os comunistas a procurar com diligência um novo paradigma para o discurso anti-colonial, uma nova formulação que mergulhasse profundamente na memória atávica. É a Cidade Global. Uma grande távola redonda de comensais, que reúne os comunistas com a fidalguia sob a égide patriarcal de Sua Alteza Fidelíssima. O Quinto Império, meus senhores.
09
Abr17

A Cidade Global. ''Meia bola e força!''. Um mal entendido quase biográfico.

MCN


Sentado por trás da sua secretária, com os óculos pendurados no nariz, Victor Cunha Rego, com uma expressão incrédula, vai passando uma leitura rápida nas cerca de quinze ''laudas'' que acabei de lhe entregar.

- Ó Castro Nunes! ''Meia bola e força!''??? Não pode ser.

- São palavras dele, Senhor Dr. Temos aqui o gravador e pode ouvir a entrevista.

- Mas não pode ser. Pense lá noutro título que isto tem que ir para baixo, para a composição.

 

Durante cerca de cinco minutos fomos os dois sugerindo títulos, por último conviemos na sua proposta. ''A Comissão comemora a Comissão''.

Eram quatro páginas integrais, sem publicidade, na recém criada REVISTA SEMANÁRIO.

Logo que entreguei o texto e os documentos na composição, telefonei ao Diogo Ramada Curto. ''Vai sair''. Jantámos nesse fim de tarde na TRINDADE e, com o espírito com que então olhávamos o mundo, descontraído e sarcástico, divertimo-nos com jogos mímicos tentando antecipar as reacções do Vasco Graça Moura, do António Mega Ferreira e do Francisco Paulino, cuja amizade eu tinha a sensação amarga de ter traído, mas ninguém o mandara meter naquela palhaçada.

Ainda andava em balbúcios de menino o que denominamos hoje o ''conspirativo jornalismo de investigação. A ''peça'' absorvera-me um mês e meio de trabalho árduo, na recolha de documentação, preparação de entrevistas, visitas de cortesia à Casa dos Bicos, longas tardes de conversa divagante e extravagante com Vitorino Magalhães Godinho, sobre tudo e sobre nada, mas sempre um banho refrescante em águas luminosas.

Tratava-se de fazer a ''avaliação'' de um ano de exercício da Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses presidida por Vasco Graça Moura.

A ''peça'' saíu na edição de 21 de Outubro de 1989, antecedendo em cerca de vinte e oito anos a Exposição A CIDADE GLOBAL no Museu Nacional de Arte Antiga. Tanto eu como o Diogo Ramada Curto tínhamos a consciência de que estava em gestação um novo estilo, um estilo que iria plasmar e cristalizar no mais profundo quotidiano da intelectualidade portuguesa. Estávamos no balbúcio do ''marketing cultural''. Íamos também esboçando o nosso programa para dez anos, que em breve sofreria um golpe drástico, quando, pouco mais de um ano após, uma crónica assinada pelos dois no PÚBLICO foi abruptamente suspensa por ter escolhido como alvo o António Mega Ferreira.

Nas três semanas que se seguiram ao dia 21 de Outubro de 1989 estabeleci escritório na Cervejaria Trindade, onde jantava quase todos os dias, na companhia de um cineasta, de um compositor, de um poeta ou romancista, ou do comandante de uma corporação de bombeiros, todos esgrimindo sobre a mesa com projectos que foram preteridos pelo rigoroso critério de escolha da Comissão. Ainda me inscrevi numas aulas de solfejo para poder ler pautas de música. Mas o ambiente intelectual português era aquilo, não havia nada a fazer. Ainda hoje guardo muitos segredos que me foram contados à mesa na Cervejaria Trindade por cineastas, compositores, romancistas e poetas despeitados.

 

Trata-se sem dúvida de um mal entendido. As raízes ideológicas da indignação do Diogo Ramada Curto contra a Cidade Global remontam muito atrás. Não se trata de contestar a autenticidade de três pinturas, ou duas. Trata-se de contestar a autenticidade da intenção de organizar uma exposição grandiloquente para promover o ''marketing'' de três ou duas pinturas.
E trata-se de contestar a formulação de temas grandiloquentes já esgotados nos seus pressupostos para promover a propaganda dinâmica de uma exposição grandiloquente e vender duas pinturas grandiloquentes.

 

''1. A acção com as autarquias. A Comissão já desenvolveu mais de 150 acções com cerca de 80 autarquias, desde a realização de exposições sobre os descobrimentos à organização de conferências, provas desportivas, espectáculos, apresentação de publicações, intervenções em festivais, etc. O artigo (a minha ''peça'') deixa entrever apenas... seis!''

Resposta de Vasco Graça Moura à minha peça de 21 de Outubro de 1989, em 28 de Outubro de 1989. REVISTA SEMANÁRIO.

''Não fora uma vanguardista descrença ética, Vasco Graça Moura, que parece querer candidatar-se, seria eleito o escuteiro exemplar do ano. Trezentas e sessenta e cinco acções no espaço geométrico de doze meses... é obra. Só que, renitente, acções são acções, não parece querer distinguir quais são as boas, como perscreve Baden Powell, quais as más, ou simplesmente as incongruentes, nem boas nem más. São acções... é o que importa.''

Manuel de Castro Nunes. Resposta a Vasco Graça Moura, 28 de Outubro de 1989. REVISTA SEMANÁRIO.

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