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A Cidade Global

A Cidade Global

Não há comunista em Portugal que não se sinta obrigado pela consciência atávica a celebrar a façanha e a tragédia recente de um seu ancestral retornado das colónias. Foi essa cilada do destino que obrigou os comunistas a procurar com diligência um novo paradigma para o discurso anti-colonial, uma nova formulação que mergulhasse profundamente na memória atávica. É a Cidade Global. Uma grande távola redonda de comensais, que reúne os comunistas com a fidalguia sob a égide patriarcal de Sua Alteza Fidelíssima. O Quinto Império, meus senhores.
22
Mar17

Autêntico ou falso?

MCN


Por sugestão do próprio, que teve a amabilidade de o sugerir nesta ''mailinglist'' MUSEUM, li com atenção exaustiva o artigo de António João Cruz, publicado no jornal PÚBLICO no passado dia 17 de Março. Li também o original sugerido, que difere tangencialmente no título, ao tornar mais explícito o propósito. ''Como podem os métodos laboratoriais ajudar a esclarecer o caso das pinturas da “Cidade Global”''.

Não fora de resto a enunciação do propósito, o artigo parece-me um paradigmático exemplar escolar de introdução à matéria, de uma dada perspectiva. O seu interesse reside tão só no propósito de intervir num debate desvirtuado à partida, mas que, todavia, este artigo desvirtua, em minha opinião, até ao extremo.
Tem sido uma ambiguidade residente e resistente que se encrustou no estudo e documentação da obra de arte, sempre que nele intervêm as instâncias que lideram a área do estudo laboratorial dos suportes ou componentes materiais. Ficamos sempre sem saber o que pensam os seus autores da validade documental das suas intervenções, que ora são decisivas e imperativas para refrear as liberdades das abordagens estéticas, estilísticas e históricas, ora não estão habilitadas a suportar qualquer conclusão. Tudo depende. Tudo depende de quê? Por vezes parece que tudo depende da conclusão a que se quer e deseja aderir.

É desde já também imperativo que se estabeleça um pressuposto. É verdade que aquilo que hoje constitui a vastidão dos domínios em que a intervenção do estudo laboratorial do suporte e dos componentes materiais da obra de arte, incluindo o reconhecimento e a consciência dos seus limites, não foi resultado da procura do veredicto verdadeiro ou falso. A área dos estudos laboratoriais da obra da arte e da sua manipulação laboratorial é, no fundamental, o resultado de uma constante pesquisa na procura dos melhores procedimentos e das melhores condições para a sua conservação e restauro. E esse impulso foi determinante para que o itinerário dessa pesquisa tivesse sido como foi, para circunscrever o seu itinerário, através de procedimentos e meios.

A transgressão dos meios e procedimentos da pesquisa laboratorial para o veredicto, entre o verdadeiro e o falso, só se verificou, historicamente, quando a questão do verdadeiro ou falso se colocou em sede de intervenção, quando, no âmbito da manipulação e documentação da obra de arte em sede de restauro deu lugar a suspeitas de que as evidências aparentes podiam não corresponder ao que se tornava evidente em sede de conservação ou restauro.
Nessa sede, que é a sede da documentação predominantemente museológica, as primeiras suspeitas não incidiam sobre verdadeiro ou falso, mas sobre atribuições, cronológicas, de autor, de procedência.

É um longo e acidentado itinerário o da transgressão dos meios e procedimentos da documentação laboratorial para o domínio do veredicto falso ou verdadeiro. E o protagonista desse itinerário foi o mercado, o mercado da obra de arte. Como o mercado da obra de arte está por princípio sob suspeita, encontrou no recurso aos meios e procedimentos de documentação laboratorial um meio de reforço e de consolidação da autenticidade da mercadoria. Foi então que, para reforçar o domínio potencial de recursos financeiros para dar sustentabilidade ao laboratório, com custos por vezes elevados, em nome do ''progresso da ciência'', que o próprio laboratório se transformou em mercadoria.
Uma ambígua mercadoria, sempre pronta a negar-se, a negar o seu valor, quando lhe é oportuno.

Continua a desenvolver-se nos mais avançados meios científicos um profundo e idóneo debate acerca da validade e dos limites da documentação e da manipulação laboratorial da obra de arte que não é sintetizável no âmbito de um trabalho escolar.
Pessoalmente, eu sugeriria uma visita introdutória a ''The Rembrandt Data Base'', uma exaustiva compilação de dados e resultados do ''Rembrandt Research Project'', talvez o empreendimento mais consistente e exaustiva de documentação da obra de arte alguma vez concebido.
Mas é sem dúvida inesperado que, no âmbito da polémica que se desenvolveu em torno das obras que deram mote à intervenção de António João Cruz, se alegue a irrelevância dos estudos, procedimentos e meios laboratoriais como meio decisivo para um coerente e sólido veredicto verddeiro ou falso.
No âmbito da fragilidade dos meios e procedimentos a que parece ter-se até agora recorrido para fundamentar e alegar o verdadeiro, é inesperado que seja um técnico de documentação laboratorial que venha alegar a fragilidade dos meios e procedimentos laboratoriais.
Que precipitação, que pressa, que propósito? Que precipitação impõe que, sem o concurso dos meios e procedimentos laboratoriais mais exaustivos, se imponha o veredicto já formulado?
Insisto, todavia, em que o veredicto sobre a autenticidade dos quadros em referência se torna muito pouco relevante a par da questão para nós nuclear.
Por que razão três pinturas com um itinerário de documentação tão inconsistente deram origem a uma exposição com uma temática tão ruidosa?
Qual a origem e o sentido do alarde?

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