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A Cidade Global

A Cidade Global

Não há comunista em Portugal que não se sinta obrigado pela consciência atávica a celebrar a façanha e a tragédia recente de um seu ancestral retornado das colónias. Foi essa cilada do destino que obrigou os comunistas a procurar com diligência um novo paradigma para o discurso anti-colonial, uma nova formulação que mergulhasse profundamente na memória atávica. É a Cidade Global. Uma grande távola redonda de comensais, que reúne os comunistas com a fidalguia sob a égide patriarcal de Sua Alteza Fidelíssima. O Quinto Império, meus senhores.
01
Abr17

Censura na "mailing list" Museum.

MCN

Excelentíssimo Senhor Administrador da ''mailing list'' Museum, caso o haja.

 

Sou hoje um ancião com sessenta e seis anos de idade, na casa dos sessenta e sete. Aprendi formalmente a ler com seis anos, mas informalmente antes. Usufruí de um privilégio e benefício de que a maioria dos meus concidadãos da minha geração não puderam usufruir, o de poder aprender a ler em casa. É um bem que imperativamente me vincula perante todos os meus semelhantes, concidadãos e não, racionais e não, animais, vegetais e minerais.
Aprendi também, então, a escrever. Foi para mim um benefício concomitante, auxiliar, diria. Aprendi a escrever porque aprendi a ler, aprendi a falar porque aprendi a ouvir.
Não mais, desde então, deixei de ler. Lia tudo o que pudesse ler, ainda hoje leio tudo e, só depois de ler, decido se é bom se é mau, se foi útil ou ocioso, se devo assimilar, se devo responder e contestar, se devo corrigir o meu entendimento e, sobretudo, a minha atitude, perante mim e os outros.
Foi muita leitura, partilhada ou solitária. E muito pouca escrita, muito pouca palavra falada também. Prezei sempre sobretudo ler e ouvir.
E desde muito cedo que aprendi a refrear a palavra e a escrita. E quanto mais refreava a palavra e a escrita mais me ardia no peito esta flâmula, este ardente desejo de ler e de ouvir.
Recordo-me de ter saído de Portugal para a Alemanha em 1967, com dezassete anos, por minha conta e risco. Ao regressar, no Verão de 1968, por Paris, trazia a bagagem a abarrotar de livros, de jornais, de gravações de música, inacessíveis por cá a um pacóvio que tinha saído de Gouveia, no Sud Expresso, por Vilar Formoso. Entre a música, trazia uma fita gravada com muita música avulso, entre a qual andava embrulhada uma versão ao vivo de partes de um concerto de Manuel Freire, que não sei como foi lá parar, pois a fita fora-me oferecida por um amigo desertor que se exilara em Paris. Lá estava ''Não há machada que corte a raiz ao pensamento (...) etecetera e tal (...) porque é livre'' de Carlos Oliveira.
Para um jovem que já tinha lido tanto, muito grego e muito latim, tanta sabedoria, a canção deveria valer mais pela música do que pela poesia. Mas não foi assim. E durante anos a fio, sempre que queria desanuviar a cabeça estenuada pelas leituras, o coração transgredia para a palavra e trauteava ''Não há machado que corte (...)''.
Há sim. Há sempre um machado que corta a raiz a um pensamento e eu sabia-o bem e iria aprendê-lo melhor.
E dava então comigo a ordenar-me imperativamente. Lê! Lê! Lê! E depois de leres pensa. Porque a ninguém está vedado pensar, mais cativo ou mais livre. Mas a ti foi-te dado o privilégio raro de puderes ter lido tanto e desde tão cedo.
E assim vou escrevendo de dia para dia menos e lendo mais.
Ora, a razão primeira de ter subscrito esta lista foi o ardente desejo de ler. De ler, de ler, de ler e ouvir, de saber do outro, de saber o que se passa no reino do pensamento.
Fico por vezes estupefacto, mas também maravilhado, quando leio nesta lista uma mensagem que se repete à exaustão. ''Agradeço que cancelem a minha subscrição. Não desejo receber mais notificações.''. Estarão cansados de ler? Já leram tudo? Fecharam o coração?
Ora, vem isto a propósito de constatar que, sempre que escrevo, que é raro, porque fico geralmente absorto nas leituras, Vossa Excelência, caso o haja, só após veementes protestos oferece o que eu escrevo aos nossos confrades, muitos estenuados já de tanta leitura e incapazes de refrear o seu ardente ímpeto para falar e escrever.
Solicito pois a Vossa Excelência, caso o haja, que me designe um dia e hora por mês ou de dois em dois meses, quando entender que a hora é mais oportuna e possa importunar menos os restantes leitores, caso os haja, para que possa proferir aqui uma breve alocução escrita, sobre o tema e matéria que entender imperativa, de acordo com o ímpeto do meu coração.
E a matéria, para já, até esgotada, continuará a ser o Chafariz d'el Rei e a Rua Nova.

Com consideração.

Manuel de Castro Nunes.

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