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A Cidade Global

A Cidade Global

Não há comunista em Portugal que não se sinta obrigado pela consciência atávica a celebrar a façanha e a tragédia recente de um seu ancestral retornado das colónias. Foi essa cilada do destino que obrigou os comunistas a procurar com diligência um novo paradigma para o discurso anti-colonial, uma nova formulação que mergulhasse profundamente na memória atávica. É a Cidade Global. Uma grande távola redonda de comensais, que reúne os comunistas com a fidalguia sob a égide patriarcal de Sua Alteza Fidelíssima. O Quinto Império, meus senhores.
24
Mar17

Parte Terceira. Aníbal.

MCN

 


Terminada a ceia, devastado um opíparo empadão, o Perdigão embrenhou-se nos preparativos para a farsa. Dispôs quatro fardos de papelada em frente do fogo para nos servirem de assentos, como numa plateia, e arrumou os restantes junto das paredes para fazer espaço para a cena. Tudo estava de modo que a porta do fundo, que dava para o quarto do Damião, servisse de camarim, aonde recolheriam as personagens que saíam e de onde despontariam as que haviam de entrar, em seu devido tempo e sem outro aviso senão o de entrarem, que um só títere não dava para tudo. O único actor seria, obviamente, o Perdigão, que teria que fingir todas as personagens que quisesse inventar.
Ouviu-se um trecho breve de concertina, três pauladas no tecto ou no sobrado e entrou o narrador, que como tal logo se reconhecia, porque era ele próprio e sem disfarces, com a sua voz, apenas um pouco empolada e entrecortada, como é corrente nas comédias de tabuado.

- Silêncio! Vai começar... quero dizer, acabou, que eu nem sei já bem quem sou... onde é que isto vai parar?... Vai começar a função, uma função de pasmar, entra o cego Damião, entra de pernas para o ar, diz que é o Perdigão e que vem no meu lugar.

 

O Perdigão deu duas cambalhotas de atleta, ficou em posição invertida, a fazer o pino e a espernear, como se fizesse grande esforço para não tombar.
Depois falou com a voz doutoral do Damião, mas fazendo trejeitos, como se imitasse o doudo.

 

- Eu nem sei já bem quem sou. A função vai começar... quero dizer... acabou... eu nem sei continuar. Diz que eu sou o Damião, que era a sua vez de entar, se ele quer ter a razão, o que me custa lha dar? É sua esta função, quem sou eu para lha tirar?

 

A figureta veio, caminhando sobre as mãos, até à boca da cena, mesmo junto de nós, deitou a língua de fora, deu mais duas cambalhotas e ficou sentada no chão à nossa frente, mas de costas.

 

- Vá lá, diz-me tu agora, quem sou eu, quem hei de ser? Deito-te a língua de fora, para ao Damião parecer, para logo, sem demora, sem sair daqui sequer, aparecer em posição, de ser outro ou mesmo eu, não sei bem se o Perdigão, ou bem assim o sandeu.
Tanto faz, isso que importa? Se de razão é a pleita, tanto faz tê-la direita, como negá-la por torta.

 

Levantou-se, deu uma corrida e desapareceu por detrás da porta. Emboscado ainda, começou uma nova arenga, falando de modo que a sua voz parecia proceder dos confins do universo, ou dos infernos. Via-se bem que era o Damião, ele próprio, sem sobreposição de personagem alguma.

- Tu és o sim e o não, o mesmo e coisa nenhuma, de ti própria a negação, não estás em parte alguma. A vida não tem sentido, é o sentido da vida, nada te foi prometido, tu só andas de fugida.
Nada te foi prometido, és tu a tua medida, aquilo que tiveres sido, é parte que te é devida. Queres ser doudo, queres ser cego, queres ser papa, queres ser rei? Tens à vida muito apego, mas a vida não tem lei.
Perguntas-me o teu destino. E eu que sou adivinho, digo-te é só desatino, bebe um bom copo de vinho.
Qual é tua condição? Tu és tu e o contrário, vais em qualquer direcção, como as contas de um rosário. Pede um vaticínio à lua. Ela logo te dirá, se esta vida for tua, há de ser como será.
Diz agora quem falou, quem botou esta sentença? Cego és, eu doudo sou, já nem sou minha pertença.

 

Acabada esta arenga, o Damião entrou na cena e parou no meio dela com um ar confundido, mirando-se, com dificuldade em reconhecer-se, afastando-se depois e continuando a inspeccionar o sítio onde estava, como se tentasse sair de si próprio para se poder observar. Ao mesmo tempo ia falando, de novo como se fosse o Damião a imitar o doudo.

 

(...)

Elmano d'Argus, ANÍBAL, Liexa, Lisboa, 2003.

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