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A Cidade Global

A Cidade Global

Não há comunista em Portugal que não se sinta obrigado pela consciência atávica a celebrar a façanha e a tragédia recente de um seu ancestral retornado das colónias. Foi essa cilada do destino que obrigou os comunistas a procurar com diligência um novo paradigma para o discurso anti-colonial, uma nova formulação que mergulhasse profundamente na memória atávica. É a Cidade Global. Uma grande távola redonda de comensais, que reúne os comunistas com a fidalguia sob a égide patriarcal de Sua Alteza Fidelíssima. O Quinto Império, meus senhores.
12
Abr17

Passos de um debate reduzido a monólogo. A propósito de uma intervenção de Vítor Serrão.

MCN

A primeira questão que apresento à sua consideração e juízo é justamente a questão da ''autenticidade''.
Reconheci já, em outras intervenções, que o Diogo Ramada Curto, induzido pela mediatização do assunto, se precipitou ao colocar como colocou e nos trermos em que colocou a questão da ''autenticidade'', tendo provocado, inadvertidamente, a transgressão de ''autenticidade'' para a matéria específica do ''falso'', vinculada de resto a uma sugestão cronológica.
Ora, recuemos à raiz e ao ponto de partida da ''polémica'', se é bem disso que se trata.
De que estamos a falar quando ponderamos todas as questões que estas pinturas levantam no âmbito desta tónica e tema, ''autenticidade''?
Em que condições e mediante que requisitos estas obras se consideram autênticas.
Em si, as obras são autênticas icontornavelmente, existem, existem materialmente, estão penduradas nas paredes do Museu Nacional de Arte Antiga, a sua autenticidade em si e para si é incontornável. Em si, elas, as pinturas, não têm que disputar com alguém a sua ''autenticidade'' que, de resto nem questionam.
Assim sendo, elas só podem transgredir da sua ''autenticidade'' intrínseca mediante o discurso, a retórica e o destino que, através de um e outra, lhes quisermos atribuir.
Vamos partir desta formulação das questões que nos têm dividido.
Pessoalmente, eu intervim sobre esta matéria quando o Professor Vitor Serrão já tinha delineado os parâmetros da ''autenticidade''. A pintura, ou pinturas, não deixa de ser ''autêntica senão em referência ao destino que o Professor Vitor Serrão lhe traçou.
Foi por essa razão que sempre que me manifestei sobre a matéria sugeri que a questão da ''autenticidade'' não se restringia a saber se era ''falsa'', do Século XX, XIX, XVIII ou XVII.
A ''autenticidade'' devia se referida ao papel que lhe era atribuído neste contexto, nesta exposição e no discurso e narrativa que a envolvia.
Admito que a forma como o Diogo Ramada Curto interveio sobre a matéria foi precipitado, mergulhou talvez no ímpeto mediático e fez vir à tona uma indignação que tem também um itinerário.
O Professor Vitor Serrão conhece o Diogo Ramada Curto tão bem como eu. Vamos passar à frente deste estádio de ímpeto ao rubro da matéria. E recensear o que, de facto, está e deve estar em causa.
Vale?

 

*************

 

Vamos então ler com toda a atenção este relatório, o relatório dos exames realizados no Laboratório José de Figueiredo. Em que medida contribuiram eles para intervir na questão da ''autenticidade''?
O propósito dos exames está claramente enunciado. Pôr à prova um pressuposto de ''autenticidade'' já formulado, uma atribuição cronológica e uma atribuição de autoria ou procedência. Desta forma, os exames encontravam-se à partida condicionados pela enunciação prévia da ''autenticidade''.
Do meu ponto de vista, como tenho sempre notado, a ''autenticidade'' das pinturas não se restringe a estes parâmetros que nem são os mais relevantes. Eram relevantes para o Professor Vitor Serrão e foram de tal modo que condicionaram os exames.
Circunscritos a este propósito, os exames, do meu ponto de vista, nada adiantam e em nada reforçam as sugestões de que o Professor Vitor Serrão parte quanto a cronologia e a autoria. Mas seria extemporâneo estar já a tecer considerações muito aprofundadas sobre esta matéria, antes de uma leitura exaustiva da componente descritiva dos exames e resultados materiais, que nos deve exigir muito rigor e ponderação. Do meu ponto de vista nenhum dos resultados apresentados consolida as hipóteses sugeridas.
Ora, estamos ao rubro para questionar a ''autenticidade''.
As pinturas seriam ''autênticas'', se, independentemente de uma precisão cronológica que os exames não podem garantir, ou uma atribuição de autoria que os exames de forma alguma garantem, as ambiguidades na caracterização do suporte vulnerabilizam toda a boa vontade, as pinturas se considerarem habilitadas para, por si só, ou num dado contexto expositivo e narrativo, se vincularem e solidarizarem, como ''documentos'' ou mesmo como ''monumentos'' com uma dada formulação da vida e da sociedade lisboeta num dado período, mais preciso ou mais amplo. Se se manifestarem habilitadas para aprofundar a ideia e o conceito de Cidade Global, que é o conceito a que a exposição, mas também o Professor Vitor Serrão as vinculou.
Ora, então, a partir daqui, o que questionamos é o valor da pintura como pintura, tentamos delinear o seu estatuto, a sua coerência interna, nomeadamente estética e artística. Foi por isso que sugeri desde logo que o registo da fraquíssima qualidade das pinturas como episódio artístico se sobreporia aos resultados dos exames, da cronologia e da autoria.
Eu estou convencido de que os exames poderiam ter aprofundado questões que nos permitissem ponderar outros temas.
Como é que aquilo foi pintado? É pouco constatar que foi de trás para a frente, primeiro ''as arquitecturas'' depois as figuras.
Que estatuto devemos conferir a uma composição tão ''distorcida'' na perspectiva e na escala?
O que valem as pinturas como ''documento'' ou ''monumento'', para lá de representarem, mais ou menos ''fielmente'' as arquitecturas? Que valor relativo têm as arquitecturas e as figuras, dado que, como descreve o relatório dos exames, correspondem a dois episódios pictóricos distintos, anterior e posterior? Que solidariedade entre as arquitecturas e as figuras?
Como dizia, o Professor Vitor Serrão conhece o Diogo Ramada Curto tão bem como eu. Sabe como ele interroga um documento ou um episódio e de que perspectiva. Seria de esperar que o Diogo Ramada Curto interrogase, não só a exposição, mas também as pinturas com esta ''artilharia'' de questões e problemáticas.
Não me parece adiantar nada à polémica sugerir que o Diogo Ramada Curto não entende nada do assunto. As questões que tem colocado não se desvanecerão por isso.

 

*************

 

Deixe-me propor-lhe, Professor Vitor Serrão, com algum ímpeto narrativo, talvez, um itinerário de reflexão que, nós, alguns de nós, fomos trilhando na medida em que a promoção mediática da Exposição A Cidade Global se foi adensando e tomando corpo. Deixe-me referir-lhe, como suposto e pressuposto, que a ideia que foi transmitida mesmo por vários dos promotores da Exposição foi a de que a razão primeira dela foi a de apresentar publicamente estas duas pinturas. Elas não eram um incidente na Exposição, eram a sua razão de ser.
Posto isto, passo a citar Annemarie Jordan, citada pela jornalista do PÚBLICO Lucinda Canelas num artigo que traz por título ''A cidade global é como um centro comercial do Século XVI''. “Neste centro comercial do século XVI não podíamos comprar malas Louis Vuitton de milhares de libras, mas podíamos levar para casa, se tivéssemos muito dinheiro, um papagaio ou um tucano do Brasil, marfins da Serra Leoa e livros de botânica… É que na Rua Nova dos Mercadores, na Lisboa do Renascimento, havia 11 livrarias”.
Ora, vamos estacionar por momentos neste detalhe. Porque, na verdade, toda a retórica que se foi cristalizando em torno da Exposição, em grande parte difundida pelos seus próprios promotores, em grande parte perante o ''dolce fare niente'' enraizado na convicção de que tudo o que contribuisse para gerar um ambiente catártico era bem vindo, acabou por se plasmar nesta tónica.
Agora imagine a disposição do Diogo Ramada Curto, a minha também embora eu não conte para nada, perdoe a ironia, ao ler o ror dos disparates que se foram dizendo em torno de uma matéria que é, em minha opinião, no mínimo ideologicamente provocatória. Havemos oportunamente de nos fixar neste ponto, que é ou foi para mim o ponto de partida.
O facto, então, é que estas duas pinturas, a sua interpretação e leitura, iconográfica, narrativa, estilística do ponto de vista do género, sarcástico-satírico, foram apresentadas como aglutinantes do tema da Exposição. E foi esse pressuposto que ditou o imperativo de as atribuir a um pintor estrangeiro, nórdico, uma espécie de ''outro'' antropológico que remetia o olhar sobre ''a cidade global'' para o domínio da etnografia ou, no âmbito em que a retórica evoluíu, folclore.
Como digo, havendo ainda a percorrer um caminho árduo na interpretação dos dados técnicos, nomeadamente os resultados dos exames, nada, até agora, me parece consistente e sustentável com a atribuição a uma ''escola'' explicitamente nórdica ou flamenga.
Estou convicto de que o Professor Vitor Serrão entende então que o ímpeto de uma dada indignação de quem trilha este itinerário de reflexão seja proporcional ao ímpeto da ''propaganda'' e da retórica dos promotores de uma dada ideia de ''cidade global''.
Dirão neste passo os leitores que nos assistem que o Manuel é também um interveniente exógeno, que não transporta para aqui a legitimidade curricular para se pronunciar sobre temas que são exclusivos da história da arte.
Só posso rogar ao Estimado Professor Vitor Serrão que me aceite, então e meramente, como um sujeito de bom gosto e bom tom.

 

 

 

Ora, quanto às questões técnicas, sintetizando.
1. Desde que esta fase do debate se iniciou, refiro-me aos últimos dois ou três meses, eu assisti durante muito tempo silencioso. Por prudência.
Faltava-me, para intervir no debate, um elenco de documentos fundamental. Não tínhamos à disposição uma única imagem das obras, de qualquer delas, com a resolução indispensável para que pudéssemos fazer uma abordagem inicial. Faltava-nos um itinerário de imagens técnicas capazes de dispensar a presença da obra.
Nunca entendi bem porquê, com rigor. Mas confesso que não consegui evitar, muitas vezes, pensar que nos estavam a sonegar uma abordagem minimamente qualificada às obras.
2. Ora, os exames laboratoriais à pintura O Chafariz d'el Rei foram realizados entre 24 de Fevereiro, data em que o pedido chegou ao MNAA, e 7 de Abril, data em que o relatório foi mediaticamente revelado.
Um mês e meio. As obras permaneceram ''in situ'' e o equipamento móvel foi descrito. Do relatório consta não apenas a descrição dos exames e dos resultados laboratoriais, mas também a sua interpretação.
Quando eu li o relatório, a primeira questão que coloquei foi essa. Faltam os anexos. Falta-nos o elenco de imagens técnicas que possam substituir a presença física da obra para confrontar os resultados dos exames com a obra.
Esta questão é para mim crucial para poder atribuir aos exames habilitação para suportarem as interpretações, mesmo liminares, dos resultados laboratoriais dos exames. Porque aprendi e estou habituado a que, a passagem dos resultados dos exames para a sua interpretação crítica é um trabalho exaustivo de partilha multi-disciplinar entre os técnicos laboratoriais e os críticos e historiadores de arte, na presença da obra ou de documentos que a possam substituir.
Estou a responder-lhe a si, conservador restaurador, convicto de que a maioria dos intervenientes neste debate possam não acompanhar o nosso raciocínio.
O André Remígio não se interroga sobre a questão da madeira? Não se interroga acerca das razões por que os técnicos responsáveis pelos exames realizados no LJF, ao constatarem que o suporte da obra era em casquinha, não mencionam sequer nem comentam o facto de a madeira de os exames realizados em Madrid identificarem o castanho?
Ora, o que posso concluir de tudo isto é que a publicação dos resultados dos exames laboratoriais realizados em Lisboa foi extemporânea, muito mais o da sua interpretação, obedeceu a um imperativo mediático.
A partir daqui é que devemos iniciar o debate, após constatar o que falta.
Mas resumindo o que escrevi atrás, eu poderia escrever sobre o relatório dos exames realizados no LJF um livro de duzentas páginas para maçar o André Remígio. Mas poderia formular um relatório de uma dúzia de páginas depois de confrontar durante dois meses os relatório dos exames com a obra ou documentos habilitados a substituí-la, na sábia companhia do Professor Vitor Serrão e do Professor Fernando António.

 

*******

 

Respondendo à segunda questão que me propus, André Remígio, respondo-lhe de novo a si, André Remígio, conservador restaurador, sabendo que, desta vez, será o André Remígio e não os circunstantes quem não entenderá minha resposta.
Respondo então ao André Remígio, que, em comentários anteriores, manifestou reiteradamente o seu incómodo com matéria ''política''.
E pergunto-lhe. Como quer o André Remígio que eu discorra, fale ou escreva, sobre a Polis Global, excluindo, para não maçar o André Remígio, a matéria política?

 

 

Debate

 

 

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