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A Cidade Global

A Cidade Global

Não há comunista em Portugal que não se sinta obrigado pela consciência atávica a celebrar a façanha e a tragédia recente de um seu ancestral retornado das colónias. Foi essa cilada do destino que obrigou os comunistas a procurar com diligência um novo paradigma para o discurso anti-colonial, uma nova formulação que mergulhasse profundamente na memória atávica. É a Cidade Global. Uma grande távola redonda de comensais, que reúne os comunistas com a fidalguia sob a égide patriarcal de Sua Alteza Fidelíssima. O Quinto Império, meus senhores.
12
Abr17

''Saber ver pintura.'' Distintas formas de ver. Acerca de uma intervenção do Professor Vitor Serrão.

MCN


Vamos então supor e ter como pressuposto que a pintura O Chafariz d'el Rei foi pintada cerca de 1590 por um pintor anónimo de escola holandesa ou origem nórdica. Vamos supor que estes parâmetros estavam consolidados e adquiridos.
Vamos então descodificar a linguagem iconográfica e tentar estabelecer um sentido para a pintura.
Do que não podemos abstrair é de todas as incongruências artísticas, da qualidade mais do que discutível da pintura, das distorções de escala e perspectiva, da balbúrdia na composição e, mesmo assim, admitir que, mais ano menos ano, a pintura é de autor holandês ou genericamente nórdico.

 

Vamos tentar seccionar a pintura em planos de perspectiva e profundidade, tentar constituir uma hierarquia de planos, para, com base nessa operação, hierarquisarmos os assuntos, encontrarmos um tema e uma sequência narrativa ou discursiva, mais ou menos estruturante.
Tenhamos já em conta que se torna muito difícil encontrar uma sucessão de planos se nos circunscrevermos à escala das figuras. Atentemos nas duas figuras que transitam da esquerda para a direita, num plano ligeiramente mais próximo, adiante do cavaleiro negro. Confrontemos a escala dessas figuras com a do cavaleiro ou com a dos dois homens que se apresentam à garupa do cavaleiro imediatamente circunstante, tendo em conta que se apresentam no mesmo plano. Confrontemos ainda as mesmas duas figuras com a escala do negro que se apresenta em situação cómica com um penico enfiado na cabeça, que se insinua, mesmo pela sua posição central na composição, como assunto primeiro e estruturante da narrativa. Confrontemos ainda a escala desta figura com a das que, no mesmo plano de profundidade, se apresentam no terreiro do chafariz delimitado pelo muro.
Confrontemos a escala das figuras que se apresentam em primeiro plano, dentro dos barcos, com todas as outras.

 

Ora, são estes distúrbios de escala que sempre nos sugeriram que as figuras foram plantadas a esmo sobre uma primeira composição das ''arquitecturas'', decalcadas talvez de proveniências iconográficas avulso, sem qualquer coerência nem relação de escala e perspectiva entre si. Atendendo de resto a estes distúrbios, que nos obrigariam a transferir a obra para um contexto ''naïf'', se não quisermos procurar outros argumentos mais subtis, como atribuí-la a uma escola ou a uma procedência cultural ou artística? Porquê holandesa?

 

Também não penso ser necessário saber muito de pintura e de desenho para constatar as distorções primárias na perspectiva das ''arquitecturas'' em si, basta procurar o ponto de fuga e traçar as linhas de fuga com uma régua.
Se tivéssemos que atribuir então esta pintura aos finais do Século XVI ou inícios do Século XVII e a um pintor holandês como relacionaríamos toda esta balbúrdia com esses pressupostos?
A que nos referimos quando referimos uma pintura a uma escola ou a uma procedência cultural? Em que se distinguiria, do ponto de vista de estilo, de procedimentos oficinais, de tema e assunto, de identidade estética a pintura holandesa ou nórdica da espanhola, da portuguesa, da italiana?
Que estatuto atribuiríamos a esta pintura num dado contexto cronológico e cultural, no Século XVI ou XVII? Qual o estatuto do pintor? O que era um pintor na Holanda ou em Portugal no Século XVI? Qual a sua integração social e profissional?

 

Poderíamos alegar que um espontâneo não necessitaria de qualquer integração social nem oficinal nem cultural. Mas como poderemos remeter esta pintura para o universo de um espontâneo? No essencial, muitos dos procedimentos técnicos registados nos exames, tanto no de Lisboa como no de Madrid, desde a natureza dos materiais utilizados, a preparação, a ''imprimadura'' se de tal se trata, para dispensar uma relação exaustiva, não toleram a remissão da pintura para o contexto do exercício lúdico de um espontâneo.

 

O que a mim me pareceria é que se trata de alguém, não tão espontâneo como faz crer, que intentou realizar uma obra que nos parecesse espontânea, mas que ficou desde logo identificado pelo recurso aos materiais e a procedimentos que não seriam compatíveis com os materiais e procedimentos que denunciariam um espontâneo no contexto cronológico e cultural que lhe foi atribuído.
Vamos prosseguir nesta linha de prospecção e de abordagem à pintura. Mas formulo já, neste passo, a questão crucial que a sequência da polémica quis encobrir.
Em silêncio, porque até dado momento o assunto não me pareceu relevante, todas estas questões se tornaram para mim óbvias desde o primeiro momento em que pude ver imagens, pouco qualificadas, na verdade, para uma percepção segura da obra. Eu não sei se devo ser considerado, por quem, para se subtrair ao debate, esgrime currículos, um sujeito que não entende nada nem de pintura nem de história ou crítica de arte.

 

Mesmo assim, não sinto necessidade de recorrer à exibição de um currículo equivalente ou proporcional aos do Professor Vitor Serrão ou do Professor Fernando António Baptista Pereira para me apresentar perante eles e lhes expor, com exaustivo detalhe, o que senti e sinto quando observo a pintura. Quando observo a pintura em confrontação com os pressupostos que tanto um como outro lhe atribuiram. Em confrontação com os exames laboratoriais.

 

Ora, como é suposto eu não perceber nada destes assuntos, se nos referimos aos parâmetros de que se socorreram os professores Vitor Serrão e Fernando António para contestar a intervenção do Diogo Ramada Curto nesta matéria, tenho que deduzir que, não percebendo nada do assunto, tal como eu, o Diogo Ramada sentiu e percepcionou o que eu senti e percepcionei logo que pude observar as primeiras imagens da pintura.
Estamos no núcleo do problema.

 

Vamos então aos exames. O que se esperaria dos exames?
Por mim, eu sinceramente esperava que os exames demonstrassem que a apresentação actual da pintura era o resultado de múltiplos episódios de intervenção sobre um mesmo suporte. Que sobre a mesma tábua tivessem intervido, em várias sedes, contextos e momentos, mais ou menos distantes entre si, vários autores. E que assim ficássemos na posse de um meio seguro para resgatar na pintura o que pudesse ser do Século XVI e holandês porventura.
A pintura sempre me pareceu um ''cadavre exquis''. Sempre me pareceu que sobre um primeiro esboço do fundo paisagístico, das ''arquitecturas'', vários autores tivessem ''colado'' ou adicionado figuras ou grupos de figuras, procedentes de múltiplas fontes.

 

O resultado mais drástico dos exames é que eles vêm demonstrar que não é assim. E é por isso que eles deveriam requerer toda a prudência e uma confrontação exaustiva com a pintura, muita ponderação e muita partilha interdisciplinar. Na verdade, deviam ser repetidos, com recollha e análise de estratigrafias e outros meios prospectivos em pontos onde as distorções e escalas são óbvias e inquestionáveis, como é o caso da figura do negro com o penico na cabeça.
Porque, se nos circunscrevermos à interpretação que o relatório de Lisboa faz dos exames, que nos sugerem muita precipitação, na senda do relatório de Madrid, o que devíamos concluir seria que, tendo em conta os materiais e os procedimentos de trabalho oficinal identificados o autor seria um pintor de escola holandesa do Século XVI ou XVII. De escola, porque não faria sentido algum identificar um anónimo como holandês, senão em referência a uma escola, a um estatuto social e profissional, identificado nos procedimentos oficinais. Ora, esta procedência cultural e esta cronologia, se admitirmos ser solidária com os materiais e procedimentos alegados no Relatório, é liminarmente incompatível com a caracterização estilística e estética da obra.

 

Há algo de desconexo na relação da pintura com os resultados dos exames.

 

Apresentá-los mediaticamente tão precipitadamente, como suporte para a consolidação inquestionável das atribuições que a pintura carregava, foi um episódio lamentável, de imprudência, de arrogância e, a bem dizer, de manha que não resistirá a um trabalho isento e idóneo de descodificação.

Sem mais nada, sem uma prudente e exaustiva confrontação com tudo o que alegamos acima, os exames só demonstrariam que a pintura não é ''autêntica'' nos seus pressupostos. Alimentam de resto e agravam as suspeitas.

Trata-se sem dúvidas de maneiras de e disposições distintas para observar a pintura.

 

Relacionado: Passos de um debate reduzido a monólogo. A propósito de uma intervenção de Vítor Serrão

 

 

12
Abr17

Passos de um debate reduzido a monólogo. A propósito de uma intervenção de Vítor Serrão.

MCN

A primeira questão que apresento à sua consideração e juízo é justamente a questão da ''autenticidade''.
Reconheci já, em outras intervenções, que o Diogo Ramada Curto, induzido pela mediatização do assunto, se precipitou ao colocar como colocou e nos trermos em que colocou a questão da ''autenticidade'', tendo provocado, inadvertidamente, a transgressão de ''autenticidade'' para a matéria específica do ''falso'', vinculada de resto a uma sugestão cronológica.
Ora, recuemos à raiz e ao ponto de partida da ''polémica'', se é bem disso que se trata.
De que estamos a falar quando ponderamos todas as questões que estas pinturas levantam no âmbito desta tónica e tema, ''autenticidade''?
Em que condições e mediante que requisitos estas obras se consideram autênticas.
Em si, as obras são autênticas icontornavelmente, existem, existem materialmente, estão penduradas nas paredes do Museu Nacional de Arte Antiga, a sua autenticidade em si e para si é incontornável. Em si, elas, as pinturas, não têm que disputar com alguém a sua ''autenticidade'' que, de resto nem questionam.
Assim sendo, elas só podem transgredir da sua ''autenticidade'' intrínseca mediante o discurso, a retórica e o destino que, através de um e outra, lhes quisermos atribuir.
Vamos partir desta formulação das questões que nos têm dividido.
Pessoalmente, eu intervim sobre esta matéria quando o Professor Vitor Serrão já tinha delineado os parâmetros da ''autenticidade''. A pintura, ou pinturas, não deixa de ser ''autêntica senão em referência ao destino que o Professor Vitor Serrão lhe traçou.
Foi por essa razão que sempre que me manifestei sobre a matéria sugeri que a questão da ''autenticidade'' não se restringia a saber se era ''falsa'', do Século XX, XIX, XVIII ou XVII.
A ''autenticidade'' devia se referida ao papel que lhe era atribuído neste contexto, nesta exposição e no discurso e narrativa que a envolvia.
Admito que a forma como o Diogo Ramada Curto interveio sobre a matéria foi precipitado, mergulhou talvez no ímpeto mediático e fez vir à tona uma indignação que tem também um itinerário.
O Professor Vitor Serrão conhece o Diogo Ramada Curto tão bem como eu. Vamos passar à frente deste estádio de ímpeto ao rubro da matéria. E recensear o que, de facto, está e deve estar em causa.
Vale?

 

*************

 

Vamos então ler com toda a atenção este relatório, o relatório dos exames realizados no Laboratório José de Figueiredo. Em que medida contribuiram eles para intervir na questão da ''autenticidade''?
O propósito dos exames está claramente enunciado. Pôr à prova um pressuposto de ''autenticidade'' já formulado, uma atribuição cronológica e uma atribuição de autoria ou procedência. Desta forma, os exames encontravam-se à partida condicionados pela enunciação prévia da ''autenticidade''.
Do meu ponto de vista, como tenho sempre notado, a ''autenticidade'' das pinturas não se restringe a estes parâmetros que nem são os mais relevantes. Eram relevantes para o Professor Vitor Serrão e foram de tal modo que condicionaram os exames.
Circunscritos a este propósito, os exames, do meu ponto de vista, nada adiantam e em nada reforçam as sugestões de que o Professor Vitor Serrão parte quanto a cronologia e a autoria. Mas seria extemporâneo estar já a tecer considerações muito aprofundadas sobre esta matéria, antes de uma leitura exaustiva da componente descritiva dos exames e resultados materiais, que nos deve exigir muito rigor e ponderação. Do meu ponto de vista nenhum dos resultados apresentados consolida as hipóteses sugeridas.
Ora, estamos ao rubro para questionar a ''autenticidade''.
As pinturas seriam ''autênticas'', se, independentemente de uma precisão cronológica que os exames não podem garantir, ou uma atribuição de autoria que os exames de forma alguma garantem, as ambiguidades na caracterização do suporte vulnerabilizam toda a boa vontade, as pinturas se considerarem habilitadas para, por si só, ou num dado contexto expositivo e narrativo, se vincularem e solidarizarem, como ''documentos'' ou mesmo como ''monumentos'' com uma dada formulação da vida e da sociedade lisboeta num dado período, mais preciso ou mais amplo. Se se manifestarem habilitadas para aprofundar a ideia e o conceito de Cidade Global, que é o conceito a que a exposição, mas também o Professor Vitor Serrão as vinculou.
Ora, então, a partir daqui, o que questionamos é o valor da pintura como pintura, tentamos delinear o seu estatuto, a sua coerência interna, nomeadamente estética e artística. Foi por isso que sugeri desde logo que o registo da fraquíssima qualidade das pinturas como episódio artístico se sobreporia aos resultados dos exames, da cronologia e da autoria.
Eu estou convencido de que os exames poderiam ter aprofundado questões que nos permitissem ponderar outros temas.
Como é que aquilo foi pintado? É pouco constatar que foi de trás para a frente, primeiro ''as arquitecturas'' depois as figuras.
Que estatuto devemos conferir a uma composição tão ''distorcida'' na perspectiva e na escala?
O que valem as pinturas como ''documento'' ou ''monumento'', para lá de representarem, mais ou menos ''fielmente'' as arquitecturas? Que valor relativo têm as arquitecturas e as figuras, dado que, como descreve o relatório dos exames, correspondem a dois episódios pictóricos distintos, anterior e posterior? Que solidariedade entre as arquitecturas e as figuras?
Como dizia, o Professor Vitor Serrão conhece o Diogo Ramada Curto tão bem como eu. Sabe como ele interroga um documento ou um episódio e de que perspectiva. Seria de esperar que o Diogo Ramada Curto interrogase, não só a exposição, mas também as pinturas com esta ''artilharia'' de questões e problemáticas.
Não me parece adiantar nada à polémica sugerir que o Diogo Ramada Curto não entende nada do assunto. As questões que tem colocado não se desvanecerão por isso.

 

*************

 

Deixe-me propor-lhe, Professor Vitor Serrão, com algum ímpeto narrativo, talvez, um itinerário de reflexão que, nós, alguns de nós, fomos trilhando na medida em que a promoção mediática da Exposição A Cidade Global se foi adensando e tomando corpo. Deixe-me referir-lhe, como suposto e pressuposto, que a ideia que foi transmitida mesmo por vários dos promotores da Exposição foi a de que a razão primeira dela foi a de apresentar publicamente estas duas pinturas. Elas não eram um incidente na Exposição, eram a sua razão de ser.
Posto isto, passo a citar Annemarie Jordan, citada pela jornalista do PÚBLICO Lucinda Canelas num artigo que traz por título ''A cidade global é como um centro comercial do Século XVI''. “Neste centro comercial do século XVI não podíamos comprar malas Louis Vuitton de milhares de libras, mas podíamos levar para casa, se tivéssemos muito dinheiro, um papagaio ou um tucano do Brasil, marfins da Serra Leoa e livros de botânica… É que na Rua Nova dos Mercadores, na Lisboa do Renascimento, havia 11 livrarias”.
Ora, vamos estacionar por momentos neste detalhe. Porque, na verdade, toda a retórica que se foi cristalizando em torno da Exposição, em grande parte difundida pelos seus próprios promotores, em grande parte perante o ''dolce fare niente'' enraizado na convicção de que tudo o que contribuisse para gerar um ambiente catártico era bem vindo, acabou por se plasmar nesta tónica.
Agora imagine a disposição do Diogo Ramada Curto, a minha também embora eu não conte para nada, perdoe a ironia, ao ler o ror dos disparates que se foram dizendo em torno de uma matéria que é, em minha opinião, no mínimo ideologicamente provocatória. Havemos oportunamente de nos fixar neste ponto, que é ou foi para mim o ponto de partida.
O facto, então, é que estas duas pinturas, a sua interpretação e leitura, iconográfica, narrativa, estilística do ponto de vista do género, sarcástico-satírico, foram apresentadas como aglutinantes do tema da Exposição. E foi esse pressuposto que ditou o imperativo de as atribuir a um pintor estrangeiro, nórdico, uma espécie de ''outro'' antropológico que remetia o olhar sobre ''a cidade global'' para o domínio da etnografia ou, no âmbito em que a retórica evoluíu, folclore.
Como digo, havendo ainda a percorrer um caminho árduo na interpretação dos dados técnicos, nomeadamente os resultados dos exames, nada, até agora, me parece consistente e sustentável com a atribuição a uma ''escola'' explicitamente nórdica ou flamenga.
Estou convicto de que o Professor Vitor Serrão entende então que o ímpeto de uma dada indignação de quem trilha este itinerário de reflexão seja proporcional ao ímpeto da ''propaganda'' e da retórica dos promotores de uma dada ideia de ''cidade global''.
Dirão neste passo os leitores que nos assistem que o Manuel é também um interveniente exógeno, que não transporta para aqui a legitimidade curricular para se pronunciar sobre temas que são exclusivos da história da arte.
Só posso rogar ao Estimado Professor Vitor Serrão que me aceite, então e meramente, como um sujeito de bom gosto e bom tom.

 

 

 

Ora, quanto às questões técnicas, sintetizando.
1. Desde que esta fase do debate se iniciou, refiro-me aos últimos dois ou três meses, eu assisti durante muito tempo silencioso. Por prudência.
Faltava-me, para intervir no debate, um elenco de documentos fundamental. Não tínhamos à disposição uma única imagem das obras, de qualquer delas, com a resolução indispensável para que pudéssemos fazer uma abordagem inicial. Faltava-nos um itinerário de imagens técnicas capazes de dispensar a presença da obra.
Nunca entendi bem porquê, com rigor. Mas confesso que não consegui evitar, muitas vezes, pensar que nos estavam a sonegar uma abordagem minimamente qualificada às obras.
2. Ora, os exames laboratoriais à pintura O Chafariz d'el Rei foram realizados entre 24 de Fevereiro, data em que o pedido chegou ao MNAA, e 7 de Abril, data em que o relatório foi mediaticamente revelado.
Um mês e meio. As obras permaneceram ''in situ'' e o equipamento móvel foi descrito. Do relatório consta não apenas a descrição dos exames e dos resultados laboratoriais, mas também a sua interpretação.
Quando eu li o relatório, a primeira questão que coloquei foi essa. Faltam os anexos. Falta-nos o elenco de imagens técnicas que possam substituir a presença física da obra para confrontar os resultados dos exames com a obra.
Esta questão é para mim crucial para poder atribuir aos exames habilitação para suportarem as interpretações, mesmo liminares, dos resultados laboratoriais dos exames. Porque aprendi e estou habituado a que, a passagem dos resultados dos exames para a sua interpretação crítica é um trabalho exaustivo de partilha multi-disciplinar entre os técnicos laboratoriais e os críticos e historiadores de arte, na presença da obra ou de documentos que a possam substituir.
Estou a responder-lhe a si, conservador restaurador, convicto de que a maioria dos intervenientes neste debate possam não acompanhar o nosso raciocínio.
O André Remígio não se interroga sobre a questão da madeira? Não se interroga acerca das razões por que os técnicos responsáveis pelos exames realizados no LJF, ao constatarem que o suporte da obra era em casquinha, não mencionam sequer nem comentam o facto de a madeira de os exames realizados em Madrid identificarem o castanho?
Ora, o que posso concluir de tudo isto é que a publicação dos resultados dos exames laboratoriais realizados em Lisboa foi extemporânea, muito mais o da sua interpretação, obedeceu a um imperativo mediático.
A partir daqui é que devemos iniciar o debate, após constatar o que falta.
Mas resumindo o que escrevi atrás, eu poderia escrever sobre o relatório dos exames realizados no LJF um livro de duzentas páginas para maçar o André Remígio. Mas poderia formular um relatório de uma dúzia de páginas depois de confrontar durante dois meses os relatório dos exames com a obra ou documentos habilitados a substituí-la, na sábia companhia do Professor Vitor Serrão e do Professor Fernando António.

 

*******

 

Respondendo à segunda questão que me propus, André Remígio, respondo-lhe de novo a si, André Remígio, conservador restaurador, sabendo que, desta vez, será o André Remígio e não os circunstantes quem não entenderá minha resposta.
Respondo então ao André Remígio, que, em comentários anteriores, manifestou reiteradamente o seu incómodo com matéria ''política''.
E pergunto-lhe. Como quer o André Remígio que eu discorra, fale ou escreva, sobre a Polis Global, excluindo, para não maçar o André Remígio, a matéria política?

 

 

Debate

 

 

09
Abr17

A Cidade Global. ''Meia bola e força!''. Um mal entendido quase biográfico.

MCN


Sentado por trás da sua secretária, com os óculos pendurados no nariz, Victor Cunha Rego, com uma expressão incrédula, vai passando uma leitura rápida nas cerca de quinze ''laudas'' que acabei de lhe entregar.

- Ó Castro Nunes! ''Meia bola e força!''??? Não pode ser.

- São palavras dele, Senhor Dr. Temos aqui o gravador e pode ouvir a entrevista.

- Mas não pode ser. Pense lá noutro título que isto tem que ir para baixo, para a composição.

 

Durante cerca de cinco minutos fomos os dois sugerindo títulos, por último conviemos na sua proposta. ''A Comissão comemora a Comissão''.

Eram quatro páginas integrais, sem publicidade, na recém criada REVISTA SEMANÁRIO.

Logo que entreguei o texto e os documentos na composição, telefonei ao Diogo Ramada Curto. ''Vai sair''. Jantámos nesse fim de tarde na TRINDADE e, com o espírito com que então olhávamos o mundo, descontraído e sarcástico, divertimo-nos com jogos mímicos tentando antecipar as reacções do Vasco Graça Moura, do António Mega Ferreira e do Francisco Paulino, cuja amizade eu tinha a sensação amarga de ter traído, mas ninguém o mandara meter naquela palhaçada.

Ainda andava em balbúcios de menino o que denominamos hoje o ''conspirativo jornalismo de investigação. A ''peça'' absorvera-me um mês e meio de trabalho árduo, na recolha de documentação, preparação de entrevistas, visitas de cortesia à Casa dos Bicos, longas tardes de conversa divagante e extravagante com Vitorino Magalhães Godinho, sobre tudo e sobre nada, mas sempre um banho refrescante em águas luminosas.

Tratava-se de fazer a ''avaliação'' de um ano de exercício da Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses presidida por Vasco Graça Moura.

A ''peça'' saíu na edição de 21 de Outubro de 1989, antecedendo em cerca de vinte e oito anos a Exposição A CIDADE GLOBAL no Museu Nacional de Arte Antiga. Tanto eu como o Diogo Ramada Curto tínhamos a consciência de que estava em gestação um novo estilo, um estilo que iria plasmar e cristalizar no mais profundo quotidiano da intelectualidade portuguesa. Estávamos no balbúcio do ''marketing cultural''. Íamos também esboçando o nosso programa para dez anos, que em breve sofreria um golpe drástico, quando, pouco mais de um ano após, uma crónica assinada pelos dois no PÚBLICO foi abruptamente suspensa por ter escolhido como alvo o António Mega Ferreira.

Nas três semanas que se seguiram ao dia 21 de Outubro de 1989 estabeleci escritório na Cervejaria Trindade, onde jantava quase todos os dias, na companhia de um cineasta, de um compositor, de um poeta ou romancista, ou do comandante de uma corporação de bombeiros, todos esgrimindo sobre a mesa com projectos que foram preteridos pelo rigoroso critério de escolha da Comissão. Ainda me inscrevi numas aulas de solfejo para poder ler pautas de música. Mas o ambiente intelectual português era aquilo, não havia nada a fazer. Ainda hoje guardo muitos segredos que me foram contados à mesa na Cervejaria Trindade por cineastas, compositores, romancistas e poetas despeitados.

 

Trata-se sem dúvida de um mal entendido. As raízes ideológicas da indignação do Diogo Ramada Curto contra a Cidade Global remontam muito atrás. Não se trata de contestar a autenticidade de três pinturas, ou duas. Trata-se de contestar a autenticidade da intenção de organizar uma exposição grandiloquente para promover o ''marketing'' de três ou duas pinturas.
E trata-se de contestar a formulação de temas grandiloquentes já esgotados nos seus pressupostos para promover a propaganda dinâmica de uma exposição grandiloquente e vender duas pinturas grandiloquentes.

 

''1. A acção com as autarquias. A Comissão já desenvolveu mais de 150 acções com cerca de 80 autarquias, desde a realização de exposições sobre os descobrimentos à organização de conferências, provas desportivas, espectáculos, apresentação de publicações, intervenções em festivais, etc. O artigo (a minha ''peça'') deixa entrever apenas... seis!''

Resposta de Vasco Graça Moura à minha peça de 21 de Outubro de 1989, em 28 de Outubro de 1989. REVISTA SEMANÁRIO.

''Não fora uma vanguardista descrença ética, Vasco Graça Moura, que parece querer candidatar-se, seria eleito o escuteiro exemplar do ano. Trezentas e sessenta e cinco acções no espaço geométrico de doze meses... é obra. Só que, renitente, acções são acções, não parece querer distinguir quais são as boas, como perscreve Baden Powell, quais as más, ou simplesmente as incongruentes, nem boas nem más. São acções... é o que importa.''

Manuel de Castro Nunes. Resposta a Vasco Graça Moura, 28 de Outubro de 1989. REVISTA SEMANÁRIO.

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07
Abr17

Os exames à Cidade Global. Duas abordagens critícas.

MCN

Conhecemos então o Relatório Sumário de Estudo Técnico e Material de Uma Pintura Sobre Madeira - Chafariz d'el Rei, pertencente à Colecção Berardo e que integra a Exposição Cidade Global no Museu Nacional de Arte Antiga.

 

Trata-se sem dúvida de uma agenda ''sui generis''. A pintura, juntamente com duas outras, sobre tela, pertencentes à Sociedade dos Antiquários de Londres, deu entrada numa exposição de alarde com uma temática pomposa tendo como suporte atribuições e interpretações, por parte dos promotores da Exposição, mas já radicadas em estudos prévios por parte de historiadores de arte como Fernando António Baptista Pereira e Vitor Serão, na ausência de exames técnicos documentados, para lá das observações iconográficas e estilísticas que sugeriam aos historiadores de arte o tema, a cronologia, mais precisa ou mais aproximada, e o ambiente cultural e artístico do pintor, nórdico ou holandês.

Questionada nas vésperas da Exposição a autenticidade das pinturas, a maioria dos historiadores de arte, incluindo o Director do MNAA, António Filipe Pimentel, manifestaram reiteradamente a opinião de que os exames técnicos eram dispensáveis, dada a solidez da crítica formal, estilística e estética, embora fosse sugerido que já haviam sido realizados. No que respeita a esta pintura, Chafariz d'el Rei, haviam sido realizados em 2001 por um laboratório espanhol e em 1997 em sede de restauro. Nunca foram todavia tornados públicos.

Foram agora realizados, cumprindo uma inesperada agenda suscitada pela contestação. Entre o dia 24 de Fevereiro de 2017 e o dia de hoje, 07 de Março de 2017, os exames foram requeridos pelo Museu Nacional de Arte Antiga ao Laboratório José de Figueiredo e realizados ao abrigo do protocolo de colaboração entre este e o Projecto HERCULES.
Literalmente, no Relatório em apreço escreve-se:
''(...) O pedido de análises laboratoriais foi efetuado pelo Museu Nacional de Arte Antiga no período em que o referido painel figurou na exposição “A Cidade Global – Lisboa no Renascimento” (24 de Fevereiro a 9 de Abril de 2017) tendo o mesmo dado entrada no Laboratório José de Figueiredo e no Laboratório HERCULES mediante a colaboração científica entre estas duas entidades. (...)''.

Deduz-se então que a pintura, que deu entrada na Exposição Cidade Global no dia 24 de Fevereiro e de onde só sairá no próximo dia 9 de Abril, deu também, mercê dos seus dotes ubíquos, entrada, no mesmo período, no Laboratório José de Figueiredo. É o que o Relatório parece fazer crer, embora, após uma leitura exaustiva, se conclua que a pintura foi sujeita a exames ''in situ''.

 

É compreensível que o propósito narrativo do Relatório fosse traído pela agenda mediática, que obrigou, não sabemos porquê, à antecipação da publicação das conclusões. Porque, para se coordenarem com a narrativa do Relatório, os exames deveriam decorrer para a semana que vem, quando, após desmontada a Exposição, a pintura pudesse dar entrada no Laboratório.
Estamos então perante um Relatório Sumário de um elenco de exames que pretendiam responder a duas questões preliminares enunciadas. Saber se a pintura respondia aos requisitos para ser atribuída a ''Escola do Norte'' e ao espectro cronológico 1570/1580.

Convém que distingamos desde já os exames realizados do relatório exarado. Os exames, tal como descritos no Relatório, são exaustivos tendo em conta as condições em que foram realizados, correspondem, no essencial, ao que está protocolado pela crítica e pela investigação. No domínio da imagem, faltam registos fotográficos qualificados e detalhados, com iluminaões declinadas, nomeadamente as rasantes, que dificilmente poderiam ser realizados ''in situ''. Mas temos uma radiografia, uma fotografia com exposição a UV, uma reflectografia de infra-vermelhos.
Quanto à identificação do material de suporte, sabemos agora que se trata de casquinha, mediante análise de amostra expressamente recolhida para o efeito.
A identificação de pigmentos e aglutinantes foi feita pelos dois métodos canónicos, por varrimento superficial e exame de amostras estratigráficas, por espectrometria de fluorescencia de raios X.

Podemos considerar este itinerário e elenco bastante, satisfatório e adequado para, devidamente ponderados os dados, alcançar o propósito pressuposto?
Resta notar que, relacionado com este propósito, não é de esperar que os exames, por si, garantam os pressupostos cronológicos ou de procedência ou autoria. Espera-se tão só que não os neguem, que não se revelem incompatíveis com eles. E esse resultado será sempre muito mais do que aceitável.
Ora, não podemos de forma alguma considerar os exames sumários, embora tivessem sido condicionados pela agenda e contexto. O Relatório, esse sim, propõe-se como sumário.
Que significa sumário quando os autores de um relatório assim o denominam? Bem, no frenesi da agenda publicitária, os jornais acorreram já hoje a publicar o sumário do Relatório Sumário.
''(...)
Estes resultados, diz o estudo, são consentâneos com o estudo realizado em 2001 ao mesmo painel por um laboratório espanhol. “No que diz respeito à análise dos materiais constituintes e da forma como estes são aplicados esta obra terá sido executada muito provavelmente por pintor de influência ou naturalidade do norte da Europa a partir da 2ª metade do século XVI, época em que se verifica o uso generalizado do pigmento azul de esmalte e se começam a utilizar imprimaduras coradas”, precisa o relatório a que o Expresso teve acesso. Desta forma não se confirmam as suspeitas levantadas pelos historiadores Diogo Ramada Curto e João Alves Dias e divulgadas pelo Expresso na edição de 18 de fevereiro.
(...)'' EXPRESSO.

 

Temos então que, transferido para o contexto da propaganda mediática, o Relatório Sumário tinha por propósito, para lá dos enunciados, confirmar as suspeitas levantadas por Diogo Ramada Curto e por João Alves Dias.
Vejamos então. O Relatório tem duas componentes estruturantes. Uma é descritiva, descreve os exames e os seus resultados. Outra é interpretativa, confronta os resultados dos exames com as sugestões propostas, quer pelos historiadores de arte, quer pelos que os contestaram.
O que nos dizem os resultados dos exames?

No que respeita à caracterização do suporte, trata-se de um painel constituído por três tábuas de casquinha dispostas em sucessão horizontal. A casquinha foi identificada numa amostra recolhida para o efeito, exame não documentado no Relatório. A disposição das tábuas pode observar-se claramente na radiografia, embora não se identifiquem os processos de acoplagem.
No que respeita à caracterização dos materiais pictóricos, a preparação da tábua foi feita exclusivamente com uma camada de cré directamente sobre a tábua. Sobre esta preparação foi aplicada uma imprimadura, de cor bege alaranjada composta por branco de chumbo, calcite, vermelhão e ocres, com azul de esmalte em áreas pontuais. Finalmente, sobre esta camada, sem outra camada intermédia, constroi-se o motivo com uma só ou duas camadas.
Os espectro de pigmentos é reduzido. Branco de chumbo, ocres, azurite, azul de esmalte, umbria e carvão. Os verdes e vermelhos foram associados a cobre e mercúrio (vermelhão).

No que respeita aos procedimentos pictóricos propriamente ditos, acrescem às observações estratigráficas, já descritas, os dados que respeitam à observação das imagens, nomeadamente a radiografia e a reflectografia de infravermelhos. Uma nota especial para a reflectografia de infra-vermelhos.
O Relatório, talvez por ser sumário, apresenta as imagens destes documentos embebidas e não em anexos, sem a resolução requerida, o que limita bastante a sua análise e observação.
Os relatores concluem da observação destes documentos, nomeadamente da reflectografia, a ausência de desenho preparatório. Não é a nossa interpretação. Há desenho preparatório, que nos mostra a imagem, no fundamental, é o estrato do desenho, com os detalhes claramente bordejados por traços de desenho, mas não são visíveis quaisquer correcções. Esta constatação levanta, do nosso ponto de vista, sérias objecções à interpretação do relator.

Como e em que contexto está o pintor a trabalhar? À vista, como se tem pretendido? Em composição espontânea? A nossa suspeita foi sempre a de que o pintor estava a decalcar e a transferir motivos. Motivos avulso. E foi isso que motivou desde logo as primeiras reservas, a constatação de que não havia relação de escala nem de perspectiva entre os diversos motivos da composição. A composição apresenta-se como uma colagem de motivos, dissociados na escala e perspectiva, um cúmulo de distorções. E face ao caos pictórico parecia um absurdo, um contra senso, a insistência na atribuição a uma escola. A partir de então então interrogam-se todas as congruências e incongruências.

 

Há uma questão fundamental que os relatores, na sua interpretação, deixam por resolver. Da observação da imagem radiográfica, eles deduzem que a pintura é construída de trás para a frente, como seria de esperar, os motivos humanos sobrepõem-se a uma prévia composição ''das arquitecturas''. Confrontemos essa constatação, que nos pareceria óbvia, com as estratigrafias. Os pontos de recolha de amostras estratigráficas não nos parecem seleccionados com critério e após uma observação cuidada da radiografia. Nas amostras recolhidas em que estrato se situam ''as arquitecturas''? Em que estrato se situa a ''imprimaura''. A ''arquitectura'' tem por base a ''imprimadura''? A que critérios obedeceu a selecção dos pontos de recolha das amostras? Nos locais onde se procedeu à recolha das amostras estratigráficas, não se podia concluir, genericamente, que a pintura se concluía com uma ou duas camadas sobre a imprimadura.
Também não se determinam as áreas onde a imprimadura se apresenta como superfície e cor visível. Se ''as arquitecturas'' se obtém no estrato da ''imprimadura''.

 

Estamos sem dúvida perante um mal entendido. Os exames foram programados para responder a duas questões. Para poderem fundamentar um relatório que respondesse a duas questões, se era sustentável a cronologia sugerida, se era sustentável a atribuição sugerida. Eram as duas questões a que seria menos provável que os exames pudessem responder de forma taxativa.
Essas duas questões só poderiam ser resolvidas através de uma investigação que permitisse documentar os procedimentos. Como é que o pintor pintou? Como compôs os diversos estratos da pintura? Como construíu a relação entre a paisagem, ''as arquitecturas'', e os motivos humanos?
Sejamos claros. Como conseguiu construir uma obra com tantas limitações técnicas? O que estava a ver? O que não estava a ver e introduziu na composição?
A primeira ideia que nós formámos, quando nos confrontámos com as primeiras imagens das pinturas foi a de que, alguém, um pintor desqualificado, estava na posse de um elenco de apontamentos desgarrados, de sua autoria ou não. E transfeiu-os, sem qualquer génio ou habilidade elementar para uma só composição.
Porquê? O que pretendia? Qual o estatuto do pintor?
Não é incompatível com a procedência holandesa de um pintor o uso da casquinha. Mas uma pintura não é holandesa por ser em casquinha. Poder-se-ia alegar de igual forma que é espanhola. Ou que na Cidade Global se trocava casquinha do Norte por pretos do Sul.
O espectro elementar de pigmentos identificado não é incompatível com 1570, 1580, 1630 ou mesmo 1750. Tudo depende do contexto. Na verdade, seria mais compatível com o Século XVII, 1630 para diante, um contexto em que os espectro de pigmentos se reduz, na medida em que a pintura deixa de ser trabalhada ao detalhe, do que com o Século XVI, em que persistia, sobretudo na pintura flamenga e holandesa, um estilo caracterizado por procedimentos que vinham do gótico e do renascimento e que requeriam uma paleta com um espectro rico.
É sem dúvida de registar que não se regista qualquer pigmento incompatível com uma cronologia ampla, que poderíamos estender entre o fim do Século XVI e o meado do Século XVII. Não se regista a presença de pigmentos que só seriam aceitáveis a partir dos fins do Século XVIII. Não nos apresentam todavia dados sobre aglutinantes e ligantes. Que óleo, por exemplo?
Mas como pintava um pintor holandês, de escola, em 1580? Como compunha? Como construía uma pintura?
Temos um elenco de exames que pode e deve ser melhorado, noutras condições, quando a pintura puder de facto dar entrada no Laboratório José de Figueiredo.
Temos um Relatório Sumário que se excedeu em juízos interpretativos e do nosso ponto de vista precipitados, porque estava captivo de duas formulações prévias. Foi demasiado sumário.
As grandes questões ficam por resolver. Vamos extrair do relatório o que é descritivo. Vamos completar os exames, recolhendo, nomeadamente, amostras onde a pintura se mostra mais construída e onde os motivos se sobrepõem.
E vamos trabalhar. O tempo da investigação não é nem pode ser o tempo da agenda da propaganda e dos ''media'', que tolheu os passos até agora aos investigadores.

 

Por último, seria idóneo, para não dizer cortês, que nos fizessem saber com clareza e rigor o que, em concreto, estes exames acrescem aos exames realizados ''num laboratório espanhol'' em 2001. Talvez devêssemos conhecer também esses exames. E talvez o laboratório espanhol tenha uma denominação.

Por Diogo Ramada Curto

 

*

Um relatório nunca vem só.

 

O imperativo Relatório dos exames realizados pelo Laboratório José de Figueiredo e Projecto HERCULES à pintura da Colecção Berardo O Chafariz d'el Rei teve pelo menos a virtude de trazer à luz e às costas o Relatório dos exames realizados na oficina de restauro madrilena de Rafael Romero Asenjo em Março de 2001.

Estamos pois agora em presença de dois relatórios e dois elencos de exames. Há pelo menos uma lição que os historiadores e críticos de arte, os restauradores e conservadores podem de imediato extrair do confronto entre os dois exames e relatórios, a de que a constatação de que os pintores holandeses pintavam sobre castanho ou casquinha e, por tal, uma madeira ou outra concorrem para demonstrar que uma pintura é holandesa. Se o suporte da pintura fosse em carvalho, a pintura seria com certeza chinesa.

Tomada esta lição e extracto este registo da confrontação entre os dois relatórios, subsiste uma interrogação persistente. Porque foi necessário fazer novos exames? Por que razão o Relatório elaborado em Madrid em 2001 só aparece depois de realizados os novos exames no Laboratório José de Figueiredo?

Um dia, quando a questão não estiver já no âmbito do frenesi mediático da Exposição A Cidade Global, procederemos à descodificação hermenêutica da agenda mediática da Exposição. Por agora, vamos apenas confrontar os dois relatórios.

 

O Relatório de Madrid denomina-se ''Análisis Físico-Químico de la Obra Vista do ''Chafariz d'el Rei, anónimo de escuela flamenga, Siglo XVI.''. Se no Relatório de Lisboa a cronologia e a autoria surgem explicitamente como pressupostos e linhas vectoriais para orientação dos exames, neste, de Madrid, não é claro se a sua enunciação no título é um pressuposto ou uma conclusão.

Vamos então admitir que os exames realizados em Madrid não estiveram, à partida, condicionados por qualquer pressuposto. Se o admitirmos torna-se para nós óbvio que os exames poderão ter sido mais prospectivos, não estavam condicionados por hipóteses pré-formuladas.

Talvez por essa razão, o autor deste novo relatório de velhos exames, apesar de referir que ''a madeira de castanho é típica da escola portuguesa desde a Idade Média até ao Século XVII'', infere, com inamovível convicção, que o autor anónimo é holandês.
Em que mais fundamenta o relator madrileno a sua convicção.

Vamos sumariar a informação que pôde recolher através dos exames.

O primeiro documento analisado é uma radiografia. O relator fraccionou a imagem em tomadas parcelares para depois ''montar'' a imagem de conjunto. Tal como a radiografia feita em Lisboa, no Laboratório José de Figueiredo, a imagem final conseguida é, como o relator reconhece, intensamente perturbada pela resistência da grade aos raios x. Todavia, face a um documento de leitura muito condicionada, o relator conseguiu constatar o mesmo procedimento que o relator lisboeta constatou também, o pintor pintou primeiramnte o cenário, depois colocou todas as figuras. Notemos desde já que o relator lisboeta não conhecia o relatório madrileno que só há umas horas foi dado a conhecer. De outro modo, porque realizar novos exames?

 

Condicionado, porque só posso observar as imagens embebidas no texto, eu, pessoalmente, ainda não entendi como tanto um como outro relator puderam fazer, por coincidência, tal constatação. Interrogo-me para entender como tal poderia contribuir para atribuir uma data e uma autoria, ainda que anónima, à pintura.

O relator madrileno optou por não apresentar a reflectografia de infra-vermelhos, dado que a técnica ''não trouxe dado algum novo, dado que essa técnica só recolhe desenho subjacente se realizado com negro carvão (...)''. Ensina-nos ainda que é comum em certas obras de pintura antiga sobre tábua o desenho preparatório utilizar ocres ou outro meio não baseado no carbono. Não sabíamos e, quando observamos a reflectografia realizada no Laboratório José de Figueiredo, vemos muita coisa que exclui o carvão e o carbono. E vemos traço de desenho, não necessariamente subjacente. Mas, para comentar este detalhe, importa ainda que comentemos o Relatório da restauradora Lolita Hansson e as imagens que insere.

 

O Relatório madrileno passa então à interpretação das análises das amostras estratigráficas, num total de seis. A identificação de pigmentos foi realizada exclusivamente através deste procedimento, sobre amostras estratigráficas, recorrendo a metologias de análise físico-química diferentes daquelas a que recorreu o Laboratório José de Figueiredo, como oportunamente comentaremos.
No essencial, os exames realizados em Madrid diferem dos realizados em Lisboa, no que concerne a esta matéria, no seguinte.
Os examos madrilenos operaram sobre seis amostras estratigráficas, recolhidas em pontos cuidadosamente seleccionados para abrangerem também as áreas onde a pintura se apresenta mais construída, com óbvia sobreposição de assuntos. Por essa razão identificaram mais um estrato ou camada, um quinto que acresce aos quatro identificados nos exames de Lisboa.
A camada que no Relatório de Lisboa é denominada imprimadura é descrita no Relatório madrileno como uma camada translúcida, muito rica em aglutinente e conseguida através do endurecimento do aglutinante ligeiramente pigmentado, para evitar a absorção das seguintes camadas pictóricas pela preparação.
Os exames madrilenos procederam também à identificação das matérias orgânicas, aglutinantes, concluindo que o aglutinante de base é o óleo de linhaça, tido pelo relator como material que identifica as escolas centro-europeias dos Séculos XIV a XVI. Esta sugestão requer imperativamente correcção urgente dos compêndios.

 

É muito relatório num só dia e numa só noite.
Como dizia, agora vamos trabalhar. Já temos dois relatórios. A Exposição encerra no Domingo. Deixemos o ''status'' festejar com pompa e circunstância.
Eu não tenho jornalistas à espera.


Por Manuel de Castro Nunes

02
Abr17

Exames Laboratoriais na Cidade Global. Parte II.

MCN

Qualquer opinião é legítima, desde que formulada na boa fé.

 

Estávamos então na posse de um elenco exaustivo de imagens e tratava-se agora de, depois de exaustivamente analisadas e relacionadas, passarmos à fase seguinte, a de recolher amostras físicas. Até aqui, os danos ou riscos eventuais para a pintura circunscreviam-se aos que decorriam da exposição das pinturas a iluminação mais ou menos agressiva e a radiações, nomeadamente raios x ou gama e infra vermelhos. Estes riscos encontram-se protocolarmente avaliados e os dispositivos foram calibrados de forma a torná-los irrelevantes quando comparados com as agressões a que uma pintura está sujeita no quotidiano da sua residência nas paredes de uma sala de exposição num museu.

 

Não vamos também aqui descrever mais do que para o efeito, importa a complexidade da documentação fotográfica e da sua manipulação. A exaustiva análise da documentação fotográfica fornece-nos a informação necessária para passarmos à fase seguinte. Através da análise das imagens, de superfície ou intrusivas, com radiações específicas e frequências múltiplas, formulamos já uma ideia genérica mas aprofundada da expessura da película pictórica, das suas variações através da superfície e mesmo da sua estratigrafia. Decompomos áreas de ''impasto'', identificamos o que se denomina a ''caligrafia'' do pintor, o movimento do pincel ou das espátulas, as áreas de construção mais complexa e as áreas onde o pintor mal interveio sobre a preparação. Podemos então, de acordo com o propósito da nossa pesquisa, determinar os pontos onde vamos proceder à recolha de amostras físicas, colunas estratigráficas ou ''cross sections''.

A ''cross section'' vai permitir-nos, por um lado, poder decompor e submeter a exame físico-químico todos os materiais pictóricos usados pelo pintor, nos diversos extractos do seu trabalho, identificando pigmentos, ''media'', ligantes, vernizes. Por outro, identificar como todo o trabalho do pintor se sucedeu da preparação para a superície visível, determinar com rigor nanométrico a espessura das camadas, a sua interligação e solidariedade física. Enfim, medir até à exuastão a morfologia remota já identificada e documentada pela imagem.
É possível que os propósitos realizados por uma ''cross section'' venham no futuro a poder substituídos por procedimentos de sondagem remota, com recurso a radiações prospectivas específicas, num futuro próximo ou longínquo. Mas, para já, tal é apenas uma amável expectativa.

 

Suponhamos então que todo este trabalho foi realizado e, para já, sem a intervenção específica do crítico ou historiador da arte que se limitou a assistir, ou não, e a enunciar previamente o propósito da sua pesquisa. Porque, na realidade, todos estes procedimentos estão protocolados e o técnico que os executa é um técnico com um treino e formação específicos, capaz de formular previamente a intenção e o propósito do crítico e historiador de arte.
Ora, está também protocolada a forma como o técnico laboratorial deve apresentar todos estes dados ao crítico, por forma a que o crítico não necessite de dispender muito esforço na recepção crítica dos dados. Assim dispostos para se apresentarem ao crítico e ao historiador, eles estão também operacionais para serem adquiridos pelo conservador ou restaurador. Digamos de passagem que, porque vai utilizá-los para orientar procedimentos oficinais específicos, o conservador e o restaurador vão recebê-los no quadro de uma relação distinta com a obra daquela que será a relação do crítico ou historiador. Por norma, o conservador e o restaurador estão aptos para uma relação mais acutilante com a informação técnica, razão pela qual o crítico e o historiador devem ser acompanhados pelo conservador na análise destes dados.

 

Alcançámos aqui o ponto crucial e nuclear da matéria que, na verdade, queremos abordar.

 

Num ambiente tradicionalista e conservador de fragmentação do trabalho intelectual e oficinal como o português, é muito raro ou ineverosímil podermos vislumbrar historiadores e críticos de arte com a formação eclética de Ernst van de Wetering, de Joyce Townsend, de Carmen Garrido, para citar apenas particularidades que bastem, capazes de uma relação integral com os dados da documentação laboratorial e de transportarem toda a complexidade e potencialidade dos dados de informação laboratorial para a formulação da análise estética, estilística, de contexto histórico cronológico, de compreensão analítica e desconstrutiva dos procedimentos técnicos do pintor e da sua relação com a materialidade da pintura e do ofício. Poderemos tomar este reparo, na sua especificidade, como ironia. De resto, será melhor como tal tomá-lo, porque sempre que tenha a veleidade de o fazer com seriedade nunca serei tomado a sério.

 

Se não compreendermos, de resto, esta questão em toda a sua profundidade, nunca compreenderemos como foi possível apresentar estas obras implicadas numa retórica envolvente tão densa, na ausência de dados documentais elementares.

 

Bem, haveria ainda que ponderar a validade e oportunidade da intervenção dos pintores, dos oficiais do ofício, nestas matérias e a importância que a opinião de um pintor, pressuposto um dado itinerário de formação oficinal e académica, poderia ter na análise crítica destes dados e da relação da crítica e da história de arte, com o seu aparato de estéticas, estilísticas, iconográficas, com os dados respeitantes aos procedimentos técnicos. Mas, no que respeita a esta matéria resta-nos registar, de igual modo, que os itinerários e currículos de formação na área do ensino artístico, há muito que, também, por opções de modernidade, afastaram em Portugal os oficiais do ofício da utensilhagem e do aparato técnico habilitado a uma intervenção minimamente operacional nestes domínios. Malogradamente. Porque em muitos outros contextos eles têm sido indispensáveis.

 

Façamos um breve interlúdio para ponderar outra questão, a da cronologia, absoluta ou relativa, e da validade dos exames laboratoriais para consolidar ou refutar as sugestões da análise estética, estilística e iconográfica.

 

Não cheguei a entender bem a que propósito António João Cruz, que publicou no jornal PÚBLICO um artigo acerca desta matéria, da relevância dos exames laboratoriais para a documentação das pinturas de que estamos a tratar, entendeu discorrer acerca dos procedimentos de datação, ou atribuição cronológica recorridos pela arqueologia para datar ou atribuir cronologicamente uma pintura do Século XVI ou XVII. Datações ''por carbono 14'', nomeadamente.
António João Cruz balizou correctamente os limites e condicionantes do recurso a estes procedimentos de datação, é certo. Eu não entendi foi com que propósito.

 

Os métodos de datação de uma pintura a óleo sobre madeira ou sobre tela, recorrem a outras metodologias analíticas. Poderíamos escrever um tratado para as distinguir na sua especificidade, mas podemos sugerir a consulta da Wikipedia.
Mas sugerimos um tema, um caso de estudo.

Em 1967, um advogado americano adquiriu numa galeria em Amesterdão uma pequena pequena pintura sobre tela, 46 X 38 cm, um retrato da Infanta Margarida, filha de Filipe IV, como um esboço para o retrato pintado por Diego Velázquez em 1653, hoje no Louvre.
A pintura foi mostrada um ano depois a um conservador do Art Institute of Chicago, que reportou desde logo, mediante observação detalhada mas sem o apoio de qualquer meio oficinal ou laboratorial, fundamentado na observação de múltiplas materialidades específicas, que se tratava de uma cópia do Século XIX, provavelmente do terceiro quarto do Século XIX. A pintura foi então sujeita a um exaustivo itinerário de exames, o elenco protocolar com todo o seu aparato.

O advogado não pode afinal sentir-se defraudado. A pintura é hoje admitida sem contestação como uma cópia de Edouard Manet. As questões de estilo, estéticas, de procedimento, foram abordadas posteriormente através de metodologias e exames específicos. O primeiro resultado da análise, depois confirmado no âmbito dos exames, foi a atribuição cronológica por aproximação, um quarto do Século XIX. Reunidos todos os exames, devidamente confrontados e em concomitância, o expectro cronológico persiste.

A descrição exaustiva dos exames que contextualizam este caso estão disponíveis e reunidos em múltiplos trabalhos académicos, analisados de múltiplos pontos de vista. Um deles é o da eficácia dos exames ''não destrutivos'', por referência genérica à imagem.

Ou seja. Nenhum exame laboratorial poderá confirmar ou refutar a convicção já formulada pelos historiadores e críticos de arte, que atribuem cronologias precisas a estas pintura, nomeadamente ao Chafariz d'el Rei, plasmadas nas conclusões do debate em epígrafe. 1580, por exemplo. Os exames laboratoriais são mais prudentes.

Mas poderiam, em hipótese remota, por enquanto, vir a questionar matéria conológica mais ampla e dilatada, como a de saber se 1580 cabe no Século XVII, XVIII ou XIX.

Resta-me fazer um registo imperativo.

 

Vitor Serrão é para mim um ponto de referência de idoneidade e isenção na investigação histórica e na crítica da arte em Portugal. Não posso manifestar relativamente a Vitor Serrão senão a maior estima e consideração.
De modo diverso, direi o mesmo sobre Fernando António Baptista Pereira.

Espero um dia, em conversa amena e espirituosa, com um bom copo de vinho, conseguir entender a ideia.

01
Abr17

Censura na "mailing list" Museum.

MCN

Excelentíssimo Senhor Administrador da ''mailing list'' Museum, caso o haja.

 

Sou hoje um ancião com sessenta e seis anos de idade, na casa dos sessenta e sete. Aprendi formalmente a ler com seis anos, mas informalmente antes. Usufruí de um privilégio e benefício de que a maioria dos meus concidadãos da minha geração não puderam usufruir, o de poder aprender a ler em casa. É um bem que imperativamente me vincula perante todos os meus semelhantes, concidadãos e não, racionais e não, animais, vegetais e minerais.
Aprendi também, então, a escrever. Foi para mim um benefício concomitante, auxiliar, diria. Aprendi a escrever porque aprendi a ler, aprendi a falar porque aprendi a ouvir.
Não mais, desde então, deixei de ler. Lia tudo o que pudesse ler, ainda hoje leio tudo e, só depois de ler, decido se é bom se é mau, se foi útil ou ocioso, se devo assimilar, se devo responder e contestar, se devo corrigir o meu entendimento e, sobretudo, a minha atitude, perante mim e os outros.
Foi muita leitura, partilhada ou solitária. E muito pouca escrita, muito pouca palavra falada também. Prezei sempre sobretudo ler e ouvir.
E desde muito cedo que aprendi a refrear a palavra e a escrita. E quanto mais refreava a palavra e a escrita mais me ardia no peito esta flâmula, este ardente desejo de ler e de ouvir.
Recordo-me de ter saído de Portugal para a Alemanha em 1967, com dezassete anos, por minha conta e risco. Ao regressar, no Verão de 1968, por Paris, trazia a bagagem a abarrotar de livros, de jornais, de gravações de música, inacessíveis por cá a um pacóvio que tinha saído de Gouveia, no Sud Expresso, por Vilar Formoso. Entre a música, trazia uma fita gravada com muita música avulso, entre a qual andava embrulhada uma versão ao vivo de partes de um concerto de Manuel Freire, que não sei como foi lá parar, pois a fita fora-me oferecida por um amigo desertor que se exilara em Paris. Lá estava ''Não há machada que corte a raiz ao pensamento (...) etecetera e tal (...) porque é livre'' de Carlos Oliveira.
Para um jovem que já tinha lido tanto, muito grego e muito latim, tanta sabedoria, a canção deveria valer mais pela música do que pela poesia. Mas não foi assim. E durante anos a fio, sempre que queria desanuviar a cabeça estenuada pelas leituras, o coração transgredia para a palavra e trauteava ''Não há machado que corte (...)''.
Há sim. Há sempre um machado que corta a raiz a um pensamento e eu sabia-o bem e iria aprendê-lo melhor.
E dava então comigo a ordenar-me imperativamente. Lê! Lê! Lê! E depois de leres pensa. Porque a ninguém está vedado pensar, mais cativo ou mais livre. Mas a ti foi-te dado o privilégio raro de puderes ter lido tanto e desde tão cedo.
E assim vou escrevendo de dia para dia menos e lendo mais.
Ora, a razão primeira de ter subscrito esta lista foi o ardente desejo de ler. De ler, de ler, de ler e ouvir, de saber do outro, de saber o que se passa no reino do pensamento.
Fico por vezes estupefacto, mas também maravilhado, quando leio nesta lista uma mensagem que se repete à exaustão. ''Agradeço que cancelem a minha subscrição. Não desejo receber mais notificações.''. Estarão cansados de ler? Já leram tudo? Fecharam o coração?
Ora, vem isto a propósito de constatar que, sempre que escrevo, que é raro, porque fico geralmente absorto nas leituras, Vossa Excelência, caso o haja, só após veementes protestos oferece o que eu escrevo aos nossos confrades, muitos estenuados já de tanta leitura e incapazes de refrear o seu ardente ímpeto para falar e escrever.
Solicito pois a Vossa Excelência, caso o haja, que me designe um dia e hora por mês ou de dois em dois meses, quando entender que a hora é mais oportuna e possa importunar menos os restantes leitores, caso os haja, para que possa proferir aqui uma breve alocução escrita, sobre o tema e matéria que entender imperativa, de acordo com o ímpeto do meu coração.
E a matéria, para já, até esgotada, continuará a ser o Chafariz d'el Rei e a Rua Nova.

Com consideração.

Manuel de Castro Nunes.

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